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O que fazer quando sabes o que tens de fazer, mas não encontras motivação.

Jovem sentado no sofá a usar smartphone e laptop numa sala bem iluminada e com plantas na janela.

O portátil está ligado, o café ao teu lado, e a lista de tarefas aparece impecavelmente organizada no ecrã. Tu sabes ao certo o que era suposto fazer: responder a e-mails, fechar um conceito, pôr em ordem os papéis dos impostos. Mas, em vez disso, ficas preso num pântano de separadores, vais parar outra vez ao Instagram e, de repente, estás a ler sobre plantas de interior - apesar de nem sequer teres uma. No ar fica aquela sensação discreta e pegajosa de “Eu devia…”, quase física. Só que o corpo não reage. Tu não és burro, nem preguiçoso, nem desorientado. Estás apenas… bloqueado.

Há um momento que todos conhecemos: quando nos apanhamos a nós próprios a assistir, como se estivéssemos de fora. É como se existisse uma placa de vidro invisível entre ti e a tarefa. Vês nitidamente o que tens de fazer, mas a mão não vai para o rato, nem para o documento, nem para a primeira frase. Só pensar nisso já cansa, quase no corpo. E, lá ao fundo, aparece uma pergunta que rói: se eu nem isto consigo - o que é que isso diz sobre mim? É aí que começa a verdadeira história.

Porque é que a tua cabeça diz “avança”, mas o teu corpo fica em “pausa” - motivação e procrastinação

Muita gente imagina que a falta de motivação se sente como uma recusa barulhenta. Um “Não me apetece!” em altas vozes, uma revolta mental, drama. Só que, na prática, costuma chegar de forma muito mais silenciosa. Como um nevoeiro cinzento que se deita por cima de tarefas que ainda ontem pareciam perfeitamente possíveis. O despertador toca, o plano está feito, a vontade existe - e, mesmo assim, tu passas de minicoisa em minicoisa. Esvazias a máquina de lavar loiça, arrumas “rapidamente” uma gaveta, voltas a ver mensagens. Tudo serve, menos o essencial.

Há uma imagem que vejo repetidamente: uma jovem gestora de projectos, a meio dos trinta, super organizada, com aplicações de tarefas no telemóvel e calendários a cores. Todas as manhãs, às oito em ponto, está sentada à secretária. A primeira tarefa no calendário: “Finalizar apresentação de conceito - 60 minutos”. A apresentação está a meio, e ela sabe exactamente como deve ficar o resto. Mesmo assim, abre o chat com colegas, responde a cada detalhe, e ainda ajusta duas vezes o tamanho da letra no PowerPoint. Às 11 horas, diz: “Não sei o que se passa comigo. Eu simplesmente não consigo começar.” E procura a culpa, consistentemente, nela própria.

Aqui cabe uma verdade simples e fria: motivação não é um traço de personalidade; é um resultado das condições à volta. Quando uma tarefa parece demasiado grande, demasiado vaga, ou demasiado arriscada para o teu ego, o cérebro puxa o travão de emergência. Não com estrondo, mas num modo passivo-agressivo. Empurra-te para mini-tarefas inofensivas que, por instantes, parecem produtividade. Esse mecanismo interno de protecção tenta poupar-te à sobrecarga ou a um possível falhanço. O teu “não me apetece” é muitas vezes medo ou exaustão disfarçados. Quando percebes isto, deixas de lutar contra ti - e passas a conseguir trabalhar contigo.

Como passar à acção sem ficar à espera da motivação

Uma estratégia que soa surpreendentemente banal e, ainda assim, funciona é reduzir de forma radical. Em vez de “terminar a apresentação”, faz “abrir o documento”. Em vez de “fazer exercício”, faz “vestir a roupa de treino”. O teu cérebro adora ciclos pequenos que fecham; detesta projectos enormes e indefinidos. Portanto, se estás bloqueado, corta a tarefa em pedaços tão pequenos que quase dê vontade de rir. E começa apenas pelo primeiro. Cinco minutos, nada mais. Um micro-sprint, não uma maratona.

Um erro mental muito comum: ficar à espera daquele instante em que te sentes pronto. Cheio de energia, focado, quase cinematográfico. Sejamos honestos: ninguém vive assim. Ninguém se senta todos os dias, perfeitamente carregado, interiormente alinhado, a brilhar de motivação. Quem produz muito, normalmente, construiu uma rotina pragmática. Trata a motivação como o tempo: é óptimo quando aparece, mas não é razão para cancelar o dia quando não aparece. Isso tira pressão. E, de repente, um começo mau pode, na mesma, transformar-se num dia aceitável.

Há um truque que costuma ser desvalorizado: torna o acto de começar quase embaraçosamente fácil. Deixa documentos já abertos. Põe os ténis ao lado da cama. Encosta os papéis dos impostos num monte visível e irritante em cima da mesa, em vez de os esconderes “bonitos” dentro do armário.

“A motivação não aparece a pensar, aparece a fazer”

Se reparares que voltas a fazer scroll para fugir, pergunta-te por um instante: qual é a acção mais pequena, ridiculamente simples, que eu

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